Vamos relembrar esse texto de 2001 publicado pela Rock Brigade
Em um primeiro instante, Arjen Anthony Lucassen, o “dono” do Ayreon, parece um cara ambicioso: ele lança projetos muito pessoais, chama quem quer para participar como convidado e muda os rumos de sua carreira do jeito que bem entende. No entanto, basta um bate-papo com o músico para impressão inicial se dissipar. Ele não é um cara ambicioso, não. Na verdade, ele é muito, muito ambicioso.
Extremamente simpático e com um humor típico da terra dos moinhos, o holandês Arjen Anthony Lucassen é um cara tranqüilo, que tem consciência da qualidade de seu trabalho, mas faz questão de monitorar tudo de perto.
Sua carreira começou a dar resultados concretos no início da década de 90, assim que ele deixou a banda Vengeance. Primeiro, investiu em trabalhos estritamente solo, porém, em seguida, criou o Ayreon, que nada mais é do que um trabalho totalmente solo “disfarçado” com o nome de uma banda.
Sua mais recente empreitada com o Ayreon foram as duas partes de The Universal Migrator, cuja primeira se chama The Dream Sequencer e a segunda Flight Of The Migrator (ambas foram lançadas no Brasil pelo selo paulista Hellion). A primeira é mais progressiva, enquanto a segunda cai mais para o heavy metal. Em ambas, porém, uma chuva de convidados de peso: músicos do Tiamat, Symphony X, Gamma Ray, Lana Lane, Primal Fear, Helloween, After Forever, Elegy, Rhapsody, Stratovarius e, de quebra, o convidado mais-do-que-especial Bruce Dickinson.
Uma fórmula com essa magnitude simplesmente não pode dar errado, como atesta o próprio Lucassen em um descontraído bate-papo com a Rock Brigade: “A repercussão foi incrível em alguns lugares como a Alemanha, em que entramos no Top 100 de lá, foi a primeira vez que isso aconteceu comigo. O mais incrível é que isso aconteceu com as duas partes do trabalho”, vibra. “Aqui na Holanda, a repercussão foi ótima também, eles foram escolhidos como os dois melhores discos de 2000 pela [revista] Aardshock. Nos EUA, a coisa também está rolando legal. Só no Japão é que não foi bem — na verdade, foi uma merda [risos]. Só vendemos algo em torno de seis ou sete mil discos, somando os dois CDs.”

O fato é intrigante, uma vez que o mercado japonês sempre foi um consumidor ávido desse tipo de música. “Meu primeiro disco foi muito bem lá, o segundo vendeu um pouco menos, o terceiro foi pior ainda e para os últimos dois eu já não tenho mais nenhuma esperança [risos]. O problema é que a gravadora JVC não fez nada por mim lá, não agendaram sequer uma mísera entrevista, nem sequer retornaram as minhas ligações, foram totalmente inúteis. Felizmente, meu contrato com eles acabou”, lamenta ele. “O mercado por lá é muito competitivo e acho que minha música ainda é um pouco estranha para eles. Os japoneses gostam mesmo é de AOR.”
Na América do Sul, considerando as proporções do mecado, The Universal Migrator teve melhor sorte. “Tivemos muito retorno daí. Recebo inúmeros e-mails do Brasil, Argentina, Chile, México. Os discos estão indo realmente muito bem, a Hellion Records e a Nems Enterprises estão fazendo um trabalho excelente na América do Sul. Muita gente vive me perguntando quando irei ao Brasil”, conta ele, sorrindo, satisfeito.
Essa curiosidade dos fãs é pertinente, mas a resposta de Lucassen é sempre meio frustrante: “Eu não faço shows. Eu trabalho com 15 ou 16 músicos convidados [em cada CD] e seria totalmente impossível reunir esse pessoal todo para uma turnê”, lamenta o músico. “Além disso, as músicas são muito diferentes entre si. Por exemplo, uma faixa é cantada por uma menina de 16 anos e outra por Bruce Dikcinson. Encontrar alguém capaz de reproduzir ambos é impossível, eu precisaria do Super-Homem [risos]. Ou seja, seriam necessários três ou quatro vocalistas, dois tecladistas, dois guitarristas, teria que ser uma megaprodução. Bem, eu poderia tentar, por exemplo, escolher músicas que pudessem ser cantadas por uma única pessoa, algo como fazer um show apenas com as composições mais pesadas. Talvez eu pense nisso, sim.”
Essa dificuldade toda para organizar um show também aconteceu na hora de gravar os CDs. “Foi muito difícil reunir essa gente toda. Muitos deles eu não conhecia e nem eles me conheciam, então, tive que enviar CDs a eles, tive que descobrir seus telefones e seus e-mails. Aí, passei a ligar semanalmente para eles até conseguir contatá-los. Foi muito difícil, foi realmente um trabalho sujo [risos]. Mas, assim que esses músicos chegavam ao meu estúdio, todos os problemas acabavam, eu vivi momentos especiais com eles. Imagine o que é ter um cara como Bruce Dickinson ao seu lado, cantando uma canção sua. É algo realmente incrível.”
Toda essa determinação de Lucassen em conseguir reunir gigantes do heavy metal em seu trabalho pode soar pretensioso em demasia. Só que ele não está nem aí para as críticas. “Pretensioso? Claro que é pretensioso, é extremamente pretensioso, qual o problema?!? Eu não vejo nada de errado nisso, eu não vejo isso como algo negativo se a música for boa”, dispara.
Depois da boa repercussão de The Universal Migrator, Lucassen aproveitou o momento propício e soltou no final de 2000 uma coletânea de faixas raras e sobras de estúdio, batizada Ayreonaults Only. “Eu tinha muito material guardado, coisas que não tinham sido aproveitadas, demo-tapes com Lana Lane cantando, algumas boas músicas inéditas com a participação de vários músicos amigos meus, como Timo Kotipelto [Stratovarius]. Decidi, então, lançar esse material”, lembra o músico. “Porém, eu descobri que não tinha material suficiente para um CD inteiro, por isso, resolvi gravar algumas coisas novas e fazer um álbum realmente interessante. Convidei até o Gary Hughes [do Ten] para gravar uma nova versão de uma música do disco Actual Fantasy[de 96].”
Uma das gratas revelações de Ayreonaults Only foi a cantora holandesa Astrid van der Veen, que tem apenas espantosos 14 anos de idade. “Ela tem uma voz totalmente diferente”, vibra Lucassen, que gostou tanto do gogó da garota que a convidou para estrelar seu mais novo projeto, o Ambeon, cujo álbum Fate Of A Dreamerdeve sair em maio.
“O nome desse projeto é a união de duas palavras, ‘ambient’ e ‘ayreon’. Originalmente, era para ser um disco instrumental do Ayreon, porém, quando eu ouvi essa cantora, fiquei tão impressionado que dei a ela essas músicas e pedi que fizesse suas próprias letras, que criasse suas próprias melodias e que cantasse”, conta Lucassen. “O Ambeon tem músicas baseadas no trabalho do Ayreon, mas com letras e melodias completamente diferentes. As músicas têm acompanhamento de baixo, bateria e flauta.”
Não é a primeira vez que ele trabalha com uma voz feminina, uma vez que quase sempe há cantoras convidadas para seus projetos. Uma delas foi Jacqueline Govaert, da banda pop holandesa Krezip, que divide com a norte-americana Lana Lane a lista de convidados de Temple Of The Cat, MCD lançado no ano passado. “Jacqueline é uma autêntica superstar na Holanda, vende centenas de milhares de discos aqui, tem uma banda alternativa, algo meio pop. Ela faz música para crianças. Sua participação foi legal, mas dificilmente voltaremos a trabalhar juntos”, admite o líder do Ayreon.
Como deu para perceber, toda a aparente pretensão do trabalho de Lucassen está calcada em trabalhos bem realizados, que são respaldados por nomes de peso da cena rockeira mundial. Nesse contexto, ele admite estar vivendo o auge de sua carreira por um motivo muito simples: o Ayreon foi a melhor coisa que ele já realizou na vida. “O Ayreon sou eu, porque nele pude colocar todos os meus sentimentos e trabalhar com todos os meus diferentes estilos de música. O Ayreon não tem a interferência de outros músicos, muito menos de gravadoras, é 100% do que eu quero fazer. E é também meu maior sucesso”, confessa o músico, visivelmente empolgado. “Mas eu também curti muito o Vengeance, era uma banda de metal muito louca e muito bem humorada para os anos 80. Porém, com o Ayreon, tive a possibilidade de ter meu próprio estúdio, que fica em casa mesmo. Eu nunca saio de casa, é muito louco [risos]. Eu respiro música sete dias por semana, sem férias.”
Apesar de viver enfiado em seu próprio estúdio, Lucassen não trabalha com outras bandas, apenas com seus próprios projetos. A razão para isso não chega a ser nenhuma surpresa. “É que meu ego é muito grande [gargalhadas gerais]. Eu tentei produzir outras bandas, mas eu queria fazer tudo como faço com o Ayreon: ‘Eu quero teclados analógicos, quero este som de guitarra, o baterista não é legal, eu vou trazer o meu’. Imegine eu falar isso para outras bandas, claro que não ia funcionar. Eu não posso produzir outros artistas, eu me envolvo demais e acabo até mudando o estilo do grupo. Lógico que há inúmeros conjuntos famosos que eu adoraria produzir, mas ainda não chegou o momento. Um dia, quem sabe…”, suspira.
Sem dúvida, Ritchie Blackmore, Yngwie Malmsteen e Dave Mustaine ganharam um nome de peso para o fechadíssimo Clube dos Ególatras. A diferença é que Lucassen esbanja simpatia e bom-humor, o que deve lhe render, com certeza, o título de ególatra mais simpático do mundo do rock.







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